(Texto de Luiz Guilherme Piva)
Nas entradas e nas cãs já se nota. Um pouco de barriga também. Tem que apertar os olhos pra ver o gol adversário. A mobilidade é pequena. Mas tem a técnica. O toque. O imprevisto que desmantela o ferrolho, percorre a picada, invade a clareira e põe os companheiros na cara do gol. Só que já está cansado. Quer parar. Executa seus números como o profissional no teatro mambembe, de cor, sem o ímpeto infantil que o fez tornar-se adulto naquele ofício. A categoria com que amacia e movimenta a bola intimida os que cogitam criticá-lo por não correr, não marcar, por jogar tão calado. Às vezes até ensaia-se um apupo. Mas eis o passe de mágica – e a muralha à sua frente se esfumaça. O milagre do centroavante livre na área. Palmas, gritos, espanto. Nos bastidores, depois dos jogos, sua, respira forte. Não quer mais seguir. Mas é no palco, aliás, no campo velho e esburacado, com os mesmos truques, aliás, lances, que consegue o almoço e a janta. O pior é olhar pra frente: mesmo não podendo, sabe que mais um pouco vai ter que parar. O horizonte é claro: nada se vê. E não adianta apertar os olhos. Ó Wall!!!

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